Atletas-cidadãos por Nello Morlotti

Briga generalizada no BA-VI, o tradicional clássico da Bahia, e jogador espancando gandula no Mato Grosso do Sul. A violência, tema recorrente no Brasil atual, parece ter invadido a única fronteira que se imaginava inexpugnável: o campo de jogo. Até então, ali a batalha era outra. Disputava-se o ponto, a vitória. Mas pelas cenas do fim de semana, a luta agora é outra: pela sobrevivência.
Pode ser pelo ambiente de confronto que o Brasil vive no momento, em que o acirramento de ideias virou acirramento por imposição de ideias, e pode ser também pelo ambiente fervilhante que as redes sociais ajudam a propagar. Mas o fato é que o jogador, o atleta, se deixou contaminar. Logo ele, do qual se esperava o contrário. Se a vida está dura, o esporte deveria amainá-la.
Um drible, um gol ou um lance genial podem parar uma guerra – Pelé que o diga. Mas a briga entre jogadores é o que há de pior. Ela rompe a última fronteira da paz: o sagrado campo de jogo. Por isso, o atleta de hoje deve levar sua cidadania na ponta das chuteiras. Cabe a ele ter noção de que carrega o coletivo em suas ações. Um ato impensado pode ser o rastilho de pólvora para o mal generalizado.
A “dança do Créu” na frente da torcida rival não vai entrar para a história. Não se trata de irreverência na terra da irreverência – Salvador -, mas de pura provocação que desencadeou a violência. O episódio dá a exata noção do papel do atleta nos dias de hoje. Não se espera dele a encarnação da santidade, mas que haja com cidadania – inclusive, dentro de campo.
Como representantes de suas torcidas, os jogadores de futebol, em especial – pois são os personagens do esporte que domina 99% das atenções no Brasil -, precisam ter a consciência, ou ser conscientizados, do quanto podem influenciar. Infelizmente, a maioria ainda não tem essa percepção. Que os episódios tristes do fim de semana sirvam pelo menos para isso: começar a gerar atletas-cidadãos.
Nello Morlotti

